quarta-feira, 9 de março de 2011

Direitos de circulação da cultura


Creative Commons Superman.

Uma discussão que interessa a muitos

Nas últimas semanas, tenho acompanhado as discussões motivadas pela retirada da menção à Creative Commons na página do Ministério da Cultura e pelo recuo do mesmo Ministério no que se refere ao encaminhamento de uma nova proposta de legislação sobre os direitos autorais. Participaram do debate – travado principalmente nas páginas de O Globo, mas que depois se derramou por outros veículos - nomes muito representativos, como Hermano Vianna, Caetano Veloso, Gilberto Gil e José Miguel Wisnick, dentre outros.

Num campo extremamente mediado como é o da cultura na atualidade, são muitas as vozes a quem interessa esse diálogo - algumas mais, outras menos conscientes disso. Há as dos autores, daqueles que produzem cultura. Há aquelas dos múltiplos intermediários, que vão desde editores e representantes de gravadoras, até críticos culturais e advogados especializados em direitos autorais. Todos esses vivem ou almejam viver da cultura. Mas há também as vozes daqueles que menos se fazem ouvir, os consumidores de cultura, ativos ou potenciais, que, ao fim e ao cabo, são os que devem pagar a conta. É desse lugar que procurarei falar aqui.

A menção à Creative Commons fora colocada na página do Ministério na época de Gilberto Gil ou na de Juca Pereira, não importa. A retirada, na gestão Ana de Hollanda, foi compreendida por muitos como um retrocesso e uma declaração de guerra. Outros defenderam o gesto como uma posição madura e avessa ao que seriam modismos próprios de intelectuais deslumbrados com a cultura digital.

Caetano Veloso, em sua coluna dominical, tem abordado continuamente o assunto, na busca de inventivar o debate, propondo-se, ao mesmo tempo, um mediador imparcial e um defensor do direito de autor. “ Ninguém toca em nem um centavo dos meus direitos” – disse ele, em certa altura, assumindo posição que foi interpretada por muitos como conservadora.

A Folha de S. Paulo teve uma reação um pouco retardada em 22 de fevereiro, quando publicou, na primeira página da Ilustrada, matéria com o título “Duelo de compadres”, em que contrapõe entrevistas com Caetano e com Gilberto Gil, enfatizando as diferenças de posições entre ambos. O texto é encabeçado por uma foto do primeiro com ar raivoso, a gesticular. Ao pé da página, outra imagem, agora de Gil, mostra o cantor a empunhar uma guitarra, também com expressão crispada. Uma maravilha de montagem jornalística.

O artigo da Folha, embalado por uma visão muito comum, induz o leitor a julgar que as Creative Commons se contrapõe ao copyrigt. Mas será isso mesmo?

A falsa questão da Creative Commons

Creative Commons (CC) é uma organização não governamental, sem fins lucrativos declarados, com sede nos Estados Unido. Essa origem gringa tem sido uma das fontes de desconfiança de alguns dos seus críticos no Brasil. Ao usar as licenças geradas pelo sistema, qualquer autor preautoriza diferentes graus de intervenção e de compartilhamento da obra por parte de todos os possíveis usuários.

Criam-se, assim, potenciais “aberturas” no tradicional sistema de copyright, principal regulador dos direitos de autor em todo o mundo. No copyright, a reprodução ou uso de qualquer trecho de uma obra depende, caso a caso, da prévia e expressa autorização de quem a criou. Em outras palavras, pressupõe-se que “ todos os direitos são reservados”.

Sem questionar propriamente a base do copyright, as Creative Commons estabelecem um contrato privado entre o autor e o seu público, sob a guarda dessa legislação mais ampla e restritiva. As licenças do tipo CC preservam, assim, o “direito moral” do autor, aquele que “autoriza”, previamente e em caráter geral, uma restrição dos seus direitos econômicos, ao permitir a cópia e compartilhamento. Em alguns casos, as licenças liberam também modificações na obra.

Usei, no parágrafo anterior, o verbo “autorizar” de modo intencional. Não se pode esquecer nunca que “autorizar” e “autor” têm a mesma raiz. Assim, pelo mesmo teoricamente, as Creative Commons não ofendem a autoria, a autoridade do criador sobre aquilo que produziu, bem como não propõem o fim do “copyright” como um princípio geral, mas permitem que cada autor, de motu proprio, generalize licenças prévias para casos específicos.

Note-se que grafo “Creative Commons” com iniciais maiúsculas e “copyright” com minúscula. Nisso não vai nenhuma defesa de uma pretensa superioridade da primeira sobre o segundo. Também no fato de eu falar “a” ou "as" Creative Commons e “o” copyright” não há engano ou machismo embutido, ao tentar sugerir subliminarmente uma possível superioridade do segundo. Apenas contraponho “uma” licença particular, correspondente a uma marca (por isso, as maiúsculas, como em Google ou Facebook), a “um” princípio jurídico aceito universalmente (ou quase), ambos padecentes das mesmas limitações diante da realidade.

Compreendo a carga simbólica que há na exclusão da marca da Creative Commons da página de um Ministério que até ali vinha defendendo, em diversos foruns, a flexibilização dos direitos de autor, diante da realidade da nova cultural digital. Todavia, dado o caráter particular da licença, que não se coloca nunca como um princípio universal, confesso que, desde o início, fiquei sem entender a importância, a meu ver excessiva, que se deu a esse gesto.

Em um dos artigos que dedicou ao tema, Wisnick também apontou esse “ponto cego” no discurso de Caetano e dos oponentes da Creative Commons:

(...) Caetano passa do princípio liberal da livre expressão para o princípio liberal da livre competição, assegurado historicamente ao proprietário das matrizes na época da ´repetição´(´ninguém toca em um centavo dos meus direitos´). Por um motivo a ser esclarecido, no entanto, os defensores corporativos da universalidade dos direitos autorais veem a livre flexibilização, por aqueles autores que assim o queiram, e para o universo de suas próprias obras, como uma ameaça à universalização daqueles direitos. Esse é um foco gerador de mal entendidos e de fantasmas que o estado atual da discussão terá que ultrapassar.

Ou seja, por que a bronca contra a Creative Commons – ou por que a defesa acirrada dela - se, pelo menos até prova em contrário, ela não coloca em risco o princípio geral do copyrigt ou se apresenta como uma alternativa forte a ele? Não pode ser mera incompreensão. Acredito mais que se ataquem as licenças como se ataca uma bandeira inimiga.

Caetano aponta aquilo que enxerga como ingenuidade nos defensores da Creative Commons:

Por outro lado, de todas as coisas que li numa entrevista de Gil, a que mais me deixa embatucado é assertiva de que o autor deveria preferir decidir sozinho sobre como quer, em cada caso, licenciar suas obras. Ora, se é assim, ele terá que, por conta própria, rastrear os caminhos dos proventos advindos dos direitos. Sem sociedades nem ecads que intermedeiem. Será isso confortável? E mesmo viável?

Mas essa dificuldade de rastrear e fiscalizar não será a mesma que se observa no caso das obras geradas sob copyright pleno, em um mundo em que a internet ganha cada vez mais espaço e em que a capacidade de reprodução técnica cresce avassaladoramente a cada ano? Os “ecads”, para usar o termo de Caetano, não seriam – para ficar numa imagem desgastada, mas poderosa - como anões encarregados de tapar apenas com seus curtos braços os buracos que se abrem diariamente numa gigantesca represa?

A Creative Commons, ao permitir tão somente licenças voltadas para a reprodução e compartilhamento gratuitos, ao colocar possíveis restrições apenas quanto ao uso comercial das cópias ou quanto à modificação da obra de origem, assume, como princípio, a impossibilidade de tapar a represa com os bracinhos curtos do anão. Em outras palavras, parte do princípio de que eventuais receitas de um produto intelectual não serão originadas do consumo direto.

As fissuras na represa são representadas pela pirataria, pelos downloads ilegais, pelo compartilhamento de arquivos em redes do tipo P2P, todos aqueles caminhos de que os consumidores de cultura lançam mão para obterem mais barato ou mesmo grátis conteúdos a que, às vezes, sequer teriam acesso se não fosse por esses meios.

Se um autor acredita que se possam conter os vazamentos ou, pelo menos, que é honroso e lucrativo tentar fazê-lo, se quer preservar o seu direito ao esperneio, então pode manter a sua criação nos limites do copyright pleno.

Gil versus Caetano? Em: http://ecosdotelecoteco.blogspot.com/2011/02/polemica-entre-amigos.html

A verdadeira questão


Assim, o que está em jogo, no fundo,quando se grita contra a Creative Commons – embora de forma um tanto quanto irracional -, é como controlar downloads e compartilhamento de arquivos - e como receber por eles. O direito moral do autor não é afetado pelas fissuras da represa. Pelo contrário, elas são como outros tantos arautos da fama.

Se os trágicos gregos contentavam-se com uma coroa de louros, os autores contemporâneos, em sua maioria, não querem abrir mão de “nenhum centavo de seus direitos”. A briga não é contra outros autores (terreno em que as Creative Commons poderiam teoricamente estabelecer alguns limites), mas contra consumidores (caso em que licenças especiais, por mais que estabeleçam gradações de cópia, esbarram sempre na mesma incapacidade de fiscalização que assola do direito de autor convencional).

Não há como lutar contra o vínculo entre mercado e cultura. A própria luta, na maioria das vezes, vira mercadoria (é só pensar em todos os artistas malditos que viraram marcas rentáveis). Para o pensamento livre e para a liberdade criativa, foi bom os artistas se livrarem dos mecenas, bem como foi imprescindível que se aprimorassem os mecanismos de arrecadação dos proventos pagos pelo público. Artistas e intelectuais que não dependam do Estado ou de corporações, mas que possam gozar de “ócio criativo” são fundamentais para a fertilização da cultura. O copyright foi importante nesse sentido, ao aliar direitos econômicos aos direitos morais sobre a obra.

O que acontece na atualidade é que os mecanismos laboriosamente desenvolvidos ao longo dos últimos três séculos (a primeira lei do copyright data de 1709), que pareciam tão sólidos, estão rapidamente se desmanchando no ar (a referência a Marx aqui não é de graça), enquanto artistas, distribuidores e responsáveis pela fiscalização batem as cabeças, sem saber o que fazer.
Os intermediários veem os seus modelos de negócio se esboroarem, enquanto os produtores se assustam ao não encontrarem mais firmeza nas confortáveis redes de arrecadação com que contavam antes (ainda que pudessem reclamar muito delas). Os consumidores, do outro lado, se empaturram de um mingau que veem jorrar grátis, sem se preocupar muito se vão matar de fome as suas vacas sagradas.

Desse modo, no contexto atual - marcado por acelerada depreciação de tecnologias e modelos de negócio e pela chamada convergência das mídias - brigar por Creative Commons ou pelo copyright sem restrições é fazer, de certo modo, o papel daqueles cães que deixaram a caravana passar. É não perceber – ou fingir não perceber – que uma série de outras questões está sobre e sob a mesa. E muita coisa importante está sendo colocada debaixo dela.

Na realidade, a questão cerca-se de aspectos mais importantes, do ponto de vista da sociedade, do que os supostos direito e possibilidade real ou imaginária de um indivíduo determinar os limites de uso de sua obra. E muitos desses aspectos, aqueles que interessam mais diretamente aos cidadãos de modo geral, quais sejam os que remetem ao direito de acesso à cultura, estão sendo negligenciados ou pelo menos colocados num plano secundário no debate atual.

Apesar de legítimo, pensar apenas nos autores e nos sistemas de distribuição e de fiscalização não deixa de se carregar de um particularismo muito egoísta. Até por conta de quem são os debatedores, tem-se privilegiado, nos artigos de jornal que servem de pano de fundo a esta postagem, a questão da música, sob a ótica de seus produtores. Uma discussão política de alcance mais ampla viu-se reduzida, assim, em certos momentos, a um Fla-flu pró ou contra ECAD.

Quando se fala em produção de cultura, não se pode esquecer a outra ponta da cadeia, onde não há apenas um consumidor stritu senso, mas um cidadão, um homem, uma mulher. O direito de acesso à cultura deveria ser tratado sempre como inalienável. E esse é um dos pontos que, muitas vezes, tem sido colocado em segundo plano nos debates atuais.

Falar de políticas públicas (expressão, na verdade, redundante), nesse sentido, deveria sempre ser uma proposta de mediação entre os direitos do autor (morais e financeiros), de um lado, e os direitos de acesso, do outro. Os direitos de quem está no meio do caminho (gravadoras, editoras, cadeias de distribuição) não podem e não devem esquecidos, mas são sempre subsidiários, não por serem menos importantes, mas por somente existirem enquanto assegurarem aqueles outros.

Por isso, acredito que mais do que falar em direitos autorais, de intermediários ou de consumidores de cultura, deva-se falar em direitos de circulação da cultura.

A importância da legislação


Cartaz. Em: http://www.cultura.gov.br/site/2008/02/22/noticias-do-forum-nacional-de-direito-autoral/

Na realidade, a sociedade encontra-se hoje, no caso desses direitos, diante de um evidente problema de economia política, que coloca em xeque mecanismos históricos de financiamento e comercialização. É ridículo, embora às vezes comovente, fazer o papel dos copistas que foram contra a imprensa ou o dos ferradores de cavalos que brigaram contra os automóveis. Simplesmente não dá para imaginar que as coisas tenham de ficar como eram há décadas. Não se pode, de maneira legítima, tentar fazer crer que os atuais modelos sejam ahistóricos, perfeitos.

O que acontece hoje é apenas a atualização de embates que já se fizeram presentes no passado. O conflito entre o direito de acesso e os direitos financeiros, quer do autor, quer dos intermediários, é antigo. No século XVIII, Diderot e d´Alembert, os pais da Enciclopédia, escreveram opúsculos sobre a questão, colocando-se em campos opostos, como, de certo modo, Caetano e Gil hoje. O que se discutia então não era a comercialização de músicas e canções, como agora, mas de livros. Diderot colocou a sua pena a serviço não dos autores, mas dos livreiros. No caso francês, os autores vendiam seus direitos para o livreiro a um preço fixo, como um artista que vende uma obra de arte irreproduzível para alguém, que a partir desse momento tem o direito de revendê-la pelo maior valor que conseguir. Por isso, não tinham de se preocupar com cópias piratas, mas o livreiro sim. D ´Alembert, por sua vez, militou a favor do direito irrestrito de acesso dos leitores às obras de cultura e, por isso, defendeu aquilo qie hoje chamamos de pirataria, como um mal necessário.

Dentre os debatedores que se têm debruçado sobre o assunto pela imprensa nos últimos tempos, um dos que me parecem ter buscado uma posição verdadeiramente mais isenta e historicamente situada é José Miguel Wisnick, em sua coluna semanal n´O Globo. Num dos artigos, em 05/02/2011, recorreu às ideias do economista francês Jacques Attalli para localizar os atuais embates num momento em que as tecnologias de simples reprodução estão sendo colocadas sob a égide daquelas de comunicação.

"As transformações, quando se dão em música, antecipam transformações que vão se dar em toda a sociedade” – diz Wisnick, ecoando Attalli. Depois de três grandes momentos históricos da produção musical, o do “sacrifício”, o da “representação” e o da “repetição”, estaríamos entrando num quarto momento, o da “composição”, marcado por um processo de transautoria:

Hoje me parece claro: mudanças técnicas decisivas alteram a economia política da música, o modo de produção e de difusão dos sons, e o lugar dos seus detentores. A verdade é que a digitalização, o armazenamento universal, a copiagem instantânea e inumerável, as possibilidades de processamento e reprocessamento, dando um sentido inesperado à palavra "composição", têm efeitos concretos e inevitáveis sobre o destino dos sons. A acreditarmos no autor de Bruits, tem efeitos concretos sobre o destino de tudo, já que a música tem o poder de anunciá-los.

Essas mudanças são as incontroláveis fissuras na represa. Mas, além dessa abordagem que ele chama de “excessivamente panorâmica”, Wisnick sinaliza um outro – e necessário - exercício de contextualização, focado nas mudanças políticas e culturais brasileiras das últimas décadas, embora não chegue a aprofundá-lo.

Em 26/02/2011, voltou ao assunto dos direitos autorais, colocando-o não apenas no quadro de redefinição das políticas culturais proposto pela nova gestão do Ministério da Cultura, mas, numa abordagem histórica de médio alcance, como uma espécie de retomada daquilo que ele chama de “debate interrompido em 1968”. A atualização desse debate, parece, tem tanto a ver com a oposição entre liberalismo e papel do Estado como fomentador cultural, quanto com diferentes visões políticas a respeito de como esse mesmo Estado pode atuar como agente e legislador cultural.

A menos que se faça refém de grupos, o Estado deve assumir o papel de mediador numa transição histórica como a que acontece nesse momento, garantindo o diálogo entre os direitos advindos da produção cultural e aqueles mais universais, referentes ao pleno acesso.

Por que, por exemplo, impedir que alguém “pirateie” uma obra não disponível de outro modo – por exemplo, uma edição esgotada ou que não circule no local em que a pessoa mora? Por que privar uma geração inteira de ter contato com a produção de um autor porque os seus herdeiros brigam entre si ou com uma editora ou gravadora? Aqui no Brasil, foram os casos de Monteiro Lobato, Guimarães Rosa e Paulo Leminski, apenas para ficar em uns poucos e significativos exemplos. Isso sem contar os casos burros, em que filmes como Amor, estranho amor, de Walter Hugo Khouri, ou livros como A estrela solitária e Roberto Carlos em detalhes, por diferentes motivos, ficam fora de circulação, sobrestados pelo Judiciário. Todos esses são casos em que direitos privados se sobrepuseram aos públicos.

Por outro lado, por que hoje pagar escorchantes R$ 40,00 ou R$ 60,00 por um DVD em lançamento ou por um CD importado, se os novos meios de distribuição permitiriam que chegassem bem mais baratos, podendo atingir potencialmente uma audiência mais ampla, se os modelos de negócio se ajustassem à nova realidade?

Num cenário de mudanças aceleradas como o atual, a menos que acreditemos que uma nova racionalidade vai emergir naturalmente da confusão e que exista uma “mão invisível do mercado” capaz de amarrar todas as pontas soltas e desatar todos os nós, o papel do Estado, como legislador e como fiel da balança, sobressai. Como esse papel pode ser exercido sem que se transforme em tutela é uma questão chave.

A importância de atualizar a legislação a respeito da circulação cultural (hoje “legislação sobre direitos autorais”) avulta nesse cenário.

Aqui se lembre que a ministra Ana de Holanda, mais do que retirar a menção à Creative Commons da homepage do MinC, sustou a tramitação de um projeto de lei sobre os direitos autorais que vinha sendo discutido há cerca de quatro anos nas gestões anteriores e que já estava na Casa Civil para ser encaminhado ao Congresso. Esse, sim, parece um gesto substantivo, que precisa ser analisado com cuidado. As Creative Commons só funcionam – ou não – sobre o pano de fundo de uma legislação mais ampla. E é a discussão sobre a atualização desse substrato legal, evidentemente obsoleto, que não pode ser escamoteada.

Transparência é necessária

Não havia consenso sobre o projeto que a ministra retirou para vistas. É inegável, todavia, que passara por um amplo debate, talvez o mais amplo possível, em se tratando de um assunto que não desperta muitas paixões populares. Foram cinco congressos e dois foruns, reunindo especialistas nacionais e estrangeiros, num processo que se iniciou há anos e que culminou numa consulta pública, com mais de oito mil sugestões.

A pergunta que se faz é como se processará a revisão que agora se propõe. No escuro dos gabinetes? Ao longo da semana, circularam rumores de que a nova diretora de Direitos intelectuais do MinC, Marcia Regina Barbosa, seria indicada por um advogado do ECAD. Isso pode ser mentira, mera manobra para “queimar o filme” de uma servidora pública isenta. Mas os boatos são parte do preço que se paga pela falta de clareza na condução de determinados assuntos.

A legislação que se debate não é do interesse de poucos, mas de toda a sociedade brasileira. Urge trazer de novo a discussão para foruns mais amplos. Se a ministra realmente quiser mostrar transparência, é importante que divulgue, o mais rapidamente possível, um plano de ação nesse sentido.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

A praça ampliada

A ágora grega na visão de "The Age of Pericles", de Philipp von Foltz, de 1853
Tem sido muito destacado pela imprensa o papel das redes sociais nos movimentos populares que recentemente se espalharam pelo Oriente Médio, colocando em xeque antigas ditaduras. No caso do Egito, chegou-se a falar de uma autêntica “Revolução do Facebook”.

Interessante, nesse aspecto, é o que diz em depoimento publicado pela Folha de S. Paulo em 22/02/2011 o egípcio Ahmed Maher, um dos principais líderes da revolução que depôs Hosni Mubarak – e o responsável pela página do Facebook que deu origem ao Movimento 6 de Abril:

O Wael Ghonim [executivo do Google que participou de protestos] é meu amigo, mas discordo quando ele diz que essa éa revolução do Facebook. Ele entende de tecnologia, mas não de política. A internet é só uma ferramenta. O que fez a revolução foi a vontade de mudar e a disposição de fazer sacrifícios.

Uma declaração simples, mas que coloca os pingos nos “iis”. Sem negar o papel da internet no que vem acontecendo, é um exagero atribuir à rede mundial o papel protagônico que alguns lhe procuram dar. Os protagonistas são os homens e mulheres que trabalharam por uma ideia e os milhares de cidadãos que saíram às ruas.
A praça pública em que se travavam os debates a respeito da polis - a ágora - teve um papel importante na constituição da democracia grega. A imprensa esteve no centro das revoluções liberais do final dos séculos XVIII e XIX, sem que a praça e as ruas perdessem o seu lugar como campo de debates e embates.

O garoto Gavroche, mártir das barricadas, na pintura de Delacroix A Liberdade guiando o povo

A internet agora simplesmente vem ocupar o seu lugar nesse movimento histórico de ampliação do espaço público. Atribuir-lhe um papel inédito é uma forma de fetichismo e um desconhecimento da história. Cada vez mais é possível, do ponto de vista tecnológico, discutir a política sem a copresença física de todos os cidadãos. Mas ainda é na praça física que desaguam e ganham corpo os debates e convocações, quer se originem no boca a boca, na imprensa ou na internet.

A praça pode ser o lugar dos tanques ou do povo. A imprensa pode ser o espaço do pluralismo democrático ou do pensamento único, quando subjugada pela censura. A internet pode acelerar o fim de regimes podres ou servir de instrumento para os fortes. Mas é não é ela que está fazendo a revolução árabe. Homens e mulheres, na sua condição de cidadãos, é que sempre farão a diferença.

O povo egipcio na praça. Em: http://www.wscom.com.br/noticia/internacional/GOVERNO+DO+EGITO+PROIBE+MANIFESTACOES-100494

domingo, 13 de fevereiro de 2011

De novo, o grande bla bla blá

O caderno “Ciência” da Folha de S. Paulo , em 11 de fevereiro, trouxe reportagem com o título “DNA individual tem mais dados que todos os HDs”. A matéria reporta-se a artigo publicado na revista Science, que analisou os dados produzidos e armazenados entre 1986 e 2007, tanto em meios analógicos (livros, fitas VHS, discos de vinil, etc.) quanto digitais (HDs, CDs, DVDs, dentre outros). Os cientistas chegaram à conclusão que em 2007 todos os dados armazenados pela humanidade chegaram ao montante de 295 exabytes (ou 295 bilhões de gigabytes). Isso equivale, ainda segundo a reportagem, a 314,1 bilhões de músicas em MP3 ou a um 1,8 bilhão de horas de vídeo com qualidade de DVD. Disso tudo, 94% estariam armazenados em formato digital.

A matéria não dá muitos detalhes sobre o grau de redundância que há nisso tudo, isto é, quanto do material analisado não seria mera cópia de outros dados. Diz apenas que “ (...) devido à grande quantidade de fontes, os pesquisadores não se preocuparam se as informações eram inéditas ou repetidas”. Informa, todavia, que “(...) para uniformizar a medição, os cientistas fizeram algo parecido com os softwares de compactação de arquivos – como os do tipo ZIP: diminuíram o tamanho dos arquivos retirando os trechos redundantes das mensagens”.

Em outras palavras, aplicada essa metodologia, os bytes de poemas como “No meio do caminho” de Carlos Drummmond, ou “Kipling revisitado”, caracterizados justamente por uma alta repetição vocabular, necessariamente são muito reduzidos. Um plágio deles, por outro lado, é considerada informação nova.

De qualquer modo, desconsideradas as limitações naturais que há em qualquer abordagem meramente matemática da informação, os números levantados são acachapantes. Minha pobre cabeça não consegue lidar com eles. Todavia, ainda assim, sempre de acordo com a mesma reportagem, há cerca de cem vezes mais informação codificada no DNA humano que em todos os sistemas de armazenamento criados até 2007. Mantida a atual taxa de crescimento, apenas por volta de 2039 a humanidade conseguiria atingir a marca que a natureza imprimiu ao DNA.

Vejam só o espanto: se, até a mesma data, uma equipe de bioinformática conseguisse transcrever, na forma de um programa de computador, as mesmas informações contidas no DNA, tal programa teria tanta informação quanto toda aquela que os pobres homens teriam conseguido armazenar até então! Decodificar todo o genoma humano seria, então, fazer um mapa borgeano, tão completo que pode não servir para nada?

A respeito disso, a Folha informa que "(...) os cientistas ainda debatem se toda a informação contida no DNA humano é fundamental para construir e mantero organismo. Pesquisadores propuseram o conceito de ´DNA lixo´, resquícios no genoma que não serviriam para nada, mas ele tem sido bastante atacado".

Vejam só. Esse "lixo" é redundância ou informação supostamente inútil, "ruído". Como saber? As repetições vocabulares de Drummond e Paes contribuem para dar vida aos seus poemas. Sem elas, a mensagem se perde. Como dar conta disso, de verdade? No meio de tantos dados do DNA, como fazer a exegese "correta"?

Em 23 de março de 2009, portanto há quase dois anos, estimulado por uma nota rapidamente lida na publicação de bordo da TAM, publiquei um comentário sob o título “O grande bla bla blá”. Naquela ocasião, dizia-se que toda a informação digital a ser produzida até 2010 deveria equivaler a 75 pilhas de livros entre a Terra e o Sol. Agora, o artigo da Folha fala que, se toda a informação produzida até 2007 fosse colocada em uma pilha de CDs, ela equivaleria à distância da Terra à Lua. Quem tiver tempo, pode confrontar os dados, para verificar se “batem”...

Nessa coisa toda, não se computaram os bilhetes em portas de geladeira, os recados com batom nos espelhos de banheiro, os poemas xerocados distribuídos em portas de teatros, as cartas dos suicidas, os CDs riscados que alguém vai recuperar, as pobre gravações que candidatos a artistas sertanejos vendem nos botecos de Brasília.

"É o primeiro trabalho a quantificar como seres humanos lidam com a informação". Segundo a Folha é o que teria dito Martins Hilbert, da Universidade da Carolina do Sul, líder do estudo. Interessante, sem dúvida. Esse não deixa de ser o velho e bom sonho da Teoria Matemática da Informação. Mas é preciso qualificar também como esses mesmos seres humanos lidam com essa informação - inclusive como apanham dela, como se perdem em seus meandros e ainda como do lixo fazem brotar obras de arte e conhecimento novo. E esse é um trabalho de Sísifo.

Dá um certo cansaço. Sei agora que meu quinhão em todos os dados armazenados pela humanidade equivaleria a cerca de 61 CDs. Como tenho pelo menos vinte vezes isso, sem contar DVDs, livros e acesso à Internet banda larga e à TV a cabo, sou uma pessoa bem informada? Por que diabos não escrevi, então, um novo Ulisses?

Num CD do Sérgio Mallandro, se eu o tivesse, encontraria tanta informação quanto num LP, digamos, de John Coltrane ou da Badi Assad?

Acho que vou ler o último livro do Gullar. Ou um haikai de Bashô.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

A falsa gueixa e o marginal

Cartaz de Helio Oiticica - Museu é O Mundo

No último final de semana, visitei duas exposições em Brasília: Hélio Oiticica – Museu é o Mundo e Mariko Mori – Oneness. Ambas são marcadas pelo ineditismo. De acordo com a imprensa, a mostra de Hélio é a maior já organizada no Brasil e a primeira que chega à Brasília. É importante também porque, de certa forma, tem um ar de ressureição, depois do susto que todos os que gostam de arte tiveram ao saber do incêndio do acervo do artista no Rio de Janeiro, ocasião em que se chegou a temer pela perda da maior parte de sua produção. No caso de Mariko, que vem ganhando cada vez mais relevância no circuito internacional, trata-se de sua exibição inaugural no país.

Mas não é apenas o que têm de inédito que as aproxima. As duas buscam provocar algo mais do que a mera contemplação, transformar quem as visita em algo além de mero expectador. Nisso não há nada de novo, a procura por diversos graus de interatividade tornou-se um quase lugar-comum das artes há muito tempo. Mas diante dessa constatação, talvez seja interessante pensar nas diferenças que marcam esse encontro com o público nos dois casos.

Oneness, que ocupa vários espaços do Centro Cultural Banco do Brasil, antes de seguir para outras capitais brasileiras, é composta de dez instalações, além de vídeos e fotografias. As instalações são futuristas, impressionam pela tecnologia e pelo excelente acabamento. Os vídeos têm alta definição, são bonitos, extremamente contemporâneos em sua qualidade técnica. A cultura pop japonesa atravessa tudo, cruzando-se com um budismo com muito de new age nas obras mais recentes.

Confesso que as mais antigas é que me falaram mais. Em fotos como Tea Ceremony III e Red Ligth, ambas de 1994, ou Empty Dream, de 1995, Mariko – ex-modelo – posa como figuras femininas saídas de algum mangá, nos dois primeiros casos, ou como uma sereia de ar futurista e articial, no último. As composições são saudavelmente irônicas. Empty Dream retrata uma praia artificial, em que a Mariko-sereia refestela-se numa pose também artifical à frente de um barrigudo senhor japonês que filma o fotógrafo ou quem contempla o quadro. Um mundo de plástico e poses que fala para os olhos e para o cérebro, trazendo à vista mensagens com códigos deslocados.

Os materiais sintéticos e o artificialismo das cores penetram também os vídeos e as instalações, gestadas numa fase posterior da artista, mas aqui a ironia me parece esgarçada, subsituída pouco a pouco por um anseio de unicidade (afinal, a psicanálise já nos ensinou que o irônico depende sempre de uma cisão). Futuro e passado buscam uma atemporalidade mítica que se concretiza, por exemplo, em Transcircle, um círculo céltico, em que pedras são substituídas por vidro brilhante, culminando nas instalações Wave UFO, de 1999/2002 e Oneness, que dá nome à exposição.

A primeira é uma espécie de nave espacial (ou baleia primeva?), que recebe três visitantes por vez. Elétrodos capazes de ler ondas cerebrais são colocados em suas cabeças, traduzindo-as em gráficos que são projetados no teto, representando estados mentais. A leitura da obra depende, então, de um código de cores que representam esses estados. Se todos estiverem bem zens, as cores entram em ressonância.

Oneness, por outro lado, é formada por um conjunto de seis figuras humanoides dispostas em círculo (que juntamente com a esfera são formas recorrentes em toda a exposição) confeccionadas em technogel – material entre o sólido e o líquido e que imita, até certo ponto, a textura de tecidos vivos – que podem ser tocadas pelos visitantes, que então sentem um coração articial bater e podem ver os olhinhos dos robôs se acendendo. Se todas forem tocadas ao mesmo tempo, a instalação inteira se acende. O fato de os visiantes precisarem se ajoelhar para interagir com os humanoides pode servir a várias interpretações.

Os monitores pedem cuidado durante a interação. Afinal, os humanoides são sensíveis e devem ter custado muito caro.

A Revista Bravo traduziu Oneness por "Singularidade". Não me parece que Mariko busque o "Singular", mas o "Único", a noção de unicidade e plenitude que se estampa nesses círculos e nas esferas que se repetem nos vídeos e instalações.

Mas há um excesso de codificação nisso, o que é reforçado pela distribuição de senhas para que os visitantes possam interagir com as obras. Antes daquele deslocamento que se observa nas obras mais antigas, o que se vê aqui é uma necessidade dos códigos – do budismo, da cultura pop, dos panfletos, da fala dos monitores – como uma condição mesma para a interpretação.

Por outro lado, Helio Oiticica – Museu é o o Mundo, compõe-se de uma retrospectiva de toda a jornada do artista brasileiro, começando pelos metaesquemas dos anos 50, passando pelos bólides, núcleos, parangolés, chegando aos penetráveis, essas instalações de grande porte, que precisam de amplos espaços para serem montadas.

Depois de passar pelo Paço Imperial no Rio de Janeiro e pelo Itaú Cultural em São Paulo, a mostra espalha-se agora pelo Museu da República e se excede na Rodoviária, na Funarte e na Casa da Cultura da América Latina, onde também se expõem algumas instalações. Visitei apenas a parte que está no Museu da República.

Não existe aqui o fino acabamento das obras de Mariko, há rebarbas e sujeira, água, areia e pedras como elementos essenciais dos penetráveis. O que se expõe não parece querer falar seja de atemporalidade ou de eternidade (essas duas pontas que se tocam), como acontece na exposição de Mariko, mas de uma precariedade viva, que encontra eco nos vídeos com um ar antigo e rasurado que se integram à mostra. Os objetos-ideia de Oiticica não querem falar aos olhos e à mente, mas mergulhar aqueles que os usam em um festim de sentidos em que o tato e o movimento ocupam um papel relevante. E os parangolés não precisam de folhetos com instruções para serem interpretados, não precisam de interpretação, mas de serem incorporados num jogo entre o corpo e uma forma que resiste a ser única, mas se desdobra em possibilidades no espaço. Mais que usar códigos para promover a interação, mais que deslocá-los, Helio propõe ao público romper com eles. Há mais Dionísio que Apolo aqui.

Se em Mariko o passar do tempo parece ter reforçado a importância dos códigos para a construção de sua obra, em Hélio Oiticica percebe-se uma trajetória de crescente desconstrução deles entre os metaesquemas e os penetráveis.

Helio morreu em 1980, uns bons anos antes de Mariko começar a produzir. Todavia, os dois conjuntos me parecem tão contemporâneos quanto, embora de modos perversamente diversos. Quando olho os vídeos de Museu é Mundo, penso que aquilo é muito anos 1960-1970. Mas vejo que há algo que transcende a percepção histórica, algo que fica, que dialoga com o agora, que recupera o passado como presente e possibilidade de futuro. Os de Oneness parecem esteticamente mais próximos, mas naquilo que buscam de atemporal ou de fusão entre o contemporâneo e o eterno há algo de déja-vu e que talvez já comece a ficar datado (ou a indiciar um tempo).

Vejam as duas exposições.

Mariko Mori - Oneness

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Simancol

Eu estava arrumando estantes neste final de semana. Os livros são muitos, e eu colocava etiquetas para encontrá-los mais fácil. No caso da poesia, achei que deveria dividi-la em categorias, tantos são os volumes. Preparei uma etiqueta: "Poesia estrangeira". Então, dei-me conta do absurdo daquilo. Poesia não combina com adjetivos, a não ser para transformá-los em coisas. E não seria toda poesia estrangeira? Não seria toda poesia marcada por uma outridade inarredável? Mesmo aquela que possa brotar do mais íntimo, esse que é o mais forasteiro?

domingo, 29 de agosto de 2010

Leitura e sociabilidade na era dos ebooks

Albert Anker - Die Andacht des Grossvaters - 1893

Eu pretendia prosseguir escrevendo a respeito dos livros digitais tão logo terminei de publicar o último post deste blog. Todavia, uma série de problemas acabou me atrapalhando, de modo que somente volto ao assunto várias semanas depois, embalado agora por um artigo de Austin Considine, publicado originalmente no New York Times e reproduzido, neste final de semana, tanto pela Folha, quanto pelo Estado de S. Paulo, com diferentes traduções.

O texto aborda os ebooks por um viés não muito usual, qual seja o da relação entre sociabilidade e práticas de leitura. É sabido que, ao longo da chamada Idade Moderna, a migração dos livros para códices mais portáteis e o avanço da alfabetização - que tornou as pessoas menos dependentes da leitura por um terceiro - encaminharam essa atividade para uma prática cada vez mais solitária. Surgiu desse modo o clichê do “rato de biblioteca”, ensimesmado, antissocial.

Abrir um livro na sala de espera do dentista ou no metrô é passar uma informação tácita: “Estou ocupado. Não me perturbe”.

O artigo de Considine parte do testemunho de um usuário do iPad. De acordo com ele, as pessoas, ao vê-lo utilizando o aparelho, sempre se aproximam em busca de detalhes, o que não aconteceria quando porta livros convencionais, “feitos de árvores mortas” (expressão constante da tradução de Clara Allain, para a Folha, inexistente na do Estadão). Assim, livros eletrônicos favoreceriam a sociabilidade.


Its a Book-Lane Smith. In: osilenciodoslivros.blogspot.com

A observação, a meu ver, é de uma ingenuidade crassa. As pessoas se interessam porque se trata de uma gadget ainda muito recente, uma novidade tecnológica que vem alimentando os sonhos de consumo de muita gente. Acontecia isso com os telefones móveis em seus primórdios, mas agora ninguém faz isso, a menos que se trate de um aparelho muito diferente, capaz de atiçar a curiosidade e o espírito consumista de quem está ao redor. Veja-se, nesse sentido, também, o uso de instrumentos portáteis de audição musical, como o Ipod. Eles também mandam uma mensagem de “estou ocupado, não me perturbe”, fortalecida no caso pelo isolamento sonoro que o fone de ouvido pode trazer – e que pode existir também em futuros leitores digitais em que as pessoas ouçam música enquanto lêem.

Descontado o interesse pela novidade em si, o papel de chamariz, de “provocador” social, parece-me muito mais próprio do livro convencional, que quase sempre tem uma capa apta a identificá-lo para quem está ao redor e que funciona como uma espécie de cartaz publicitário portátil. Num leitor eletrônico isso não acontece. Ele faz propaganda de si mesmo e não do livro que veicula. Se vejo uma pessoa lendo, por exemplo, Walter Benjamin ou uma história em quadrinhos bacana, sinto-me tentado a conversar com ela. Se lê Paulo Coelho, livros de autoajuda baratos ou qualquer outra coisa que não faça parte de meu horizonte de interesse, posso até me sentir eventualmente tentado a aproximar-me dela, mas por outros motivos que não o livro que carrega.

Assim, certamente não é esse o melhor caminho para abordar a relação entre livros digitais e práticas de sociabilidade. A novidade é efêmera. Comprar literatura para encher um kindle somente será “ in” por pouco tempo. Por outro lado, é possível constituir clubes de leitura de Jane Austen, Machado de Assis ou Shakespeare, bem como de fãs do iPad ou do Kindle, mas, convenhamos, a riqueza de interações possíveis é bem maior no primeiro caso do que no segundo. Não importa se lemos Orgulho e preconceito em inglês ou traduzido, em capa dura, ou numa edição de bolso, ou num iPad – pelo contrário, a própria riqueza de opções é passível de ser aproveitada para enriquecer os laços sociais e intelectuais que esse tipo de experiência propicia.

Há algo nos livros eletrônicos que certamente pode mudar as práticas de leitura, e o próprio artigo de Considine dá uma pista disso. Os aparelhos de leitura eletrônica trazem, se não de forma explícita, como é o caso do iPad, mas pelo menos potencial, a possibilidade de o leitor continuar ligado à Internet, a redes sociais, ou de ouvir música e receber notícias instantâneas enquanto lê. Em outras palavras, além de poderem tornar a leitura mais fragmentada, menos imersiva, permitem que, durante a sua prática, tornem-se acessíveis todas as formas de interação não presencial que as várias redes oferecem. Todavia, parece-me óbvio que essa potencialidade será muita mais explorada durante uma leitura de um romance leve do que a de Kant..

Não é por acaso que, no mesmo artigo, apareça também a decaração de uma usuária do Kindle que o apresenta como “um modo mais fácil do que um livro para afastar as pessoas”. Um Kindle, mais do que um iPad, é um livro tradicional, num papel eletrônico e sem uma capa criada para dar uma pista do que a pessoa lê (o que não quer dizer que não desperte curiosidade e abordagens mais e menos indelicadas).

Um e-reader como o Kindle da Amazon ou o Alfa da Positivo, entre outros, oferecem maior facilidade de armazenamento, acesso e pesquisa, numa espécie de “evolução” do papel, mas têm uma capacidade menor de mudar seja a construção textual seja a leitura. O iPad, ao permitir conceitualmente, a exibição e produção de textos que mesclem escrita, imagens e sons apresenta um potencial mais subversivo nesse sentido.

Como já especulei na última postagem, provavelmente as duas experiências vão convergir num futuro próximo. Nesse momento, os e-readers farão pelo mundo da escrita algo muito parecido ao que as TVs fizeram pelo das imagens e dos sons, com as diferenças próprias de cada tecnologia. A TV não matou o cinema, mas virou mais uma possibilidade de ele chegar até as pessoas. O cinema que chega pela TV já é outro cinema, mesmo que numa tela de 90 polegadas, de alta definição e sem inserções publlicitárias. Além de veicular e modificar as linguagens do circo, do teatro, do rádio e do cinema, a TV criou uma linguagem própria.

O e-reader também fará isso. Pessoas continuarão a ler Machado, Pessoa, Guimarães Rosa e Shakespeare. Determinados escritores foram consumidos de forma diferente nos folhetins de jornal, em edições de capa dura e em livros de bolso e ganharão novas formas de leitura nos ebooks. Novos gêneros e formas de escritura surgirão, sem que as antigas desapareçam. Edições de papel apelarão cada vez mais para uma estética própria e procurarão valorizar o tátil e o livro como objeto. Textos aptos a uma leitura mais fragmentária e menos imersiva conviverão com outros mais lineares, intensivos e exigentes de lentidão. E o leitor desses últimos continuará assistindo a novelas de TV enquanto conversa com a família ou a partidas de futebol no barzinho da esquina, jogando videogame e indo ao cinema ou ao teatro.

Afinal, não precisamos ser limitados. E os laços sociais – sejam os presenciais da conversa e do abraço ou os estabelecidos nas redes informáticas – só têm a ganhar com isso.

Tom e Jerry - Chuck Jones. In: osilenciodoslivros.blogspot.com

domingo, 8 de agosto de 2010

De novo, livros impressos e ebooks




De uns tempos para cá, parecem ter ganhado corpo as discussões em torno dos chamados livros digitais. Apocalípticos e integrados saem a campo para discutir se estamos próximos do fim do livro e da leitura tal como os conhecemos, ou se diferentes tecnologias e modos de ler conviverão daqui para a frente. Como amador, eu mesmo andei dando uns pitacos em uma postagem anterior. O assunto me interessa muito, pois gosto dos livros, da leitura, das narrativas e da poesia – destaco de propósito cada uma dessas entidades, pois a poesia, por exemplo, não tem a ver necessariamente com leitura, que, por sua vez, não depende unicamente do livro.

Tais discussões, parece-me, concentram-se em alguns pontos principais que, obviamente, se entrelaçam e se desdobram.

O primeiro – o mais visível, o mais falado pelo menos - é se os atuais suportes da palavra escrita – não só o livro, mas também o jornal e a revista – vão desaparecer. Como defendi na já mencionada postagem anterior, não creio nisso. Acredito apenas que vão acontecer alguns deslocamentos. Os atuais veículos impressos vão se aninhar em nichos bem específicos, pelo menos temporariamente.

Afinal, ainda há público para os long-plays de vinil. O códice é confortável, charmoso e continuará sendo um bom suporte para romances, grafic novels, livros de arte, criações diversas que se aproveitem dos potenciais e limites da página em papel. Creio mesmo que ele vai sobreviver mais que os jornais e as revistas, que tendem a se hibridizar numa convergência entre Internet e TV digital.

O livro é veículo de uma informação mais permanente, decantada. O jornal e a revista, por natureza, têm caráter mais efêmero, defrontam-se mais diretamente com a rapidez da Internet. A TV e o rádio não conseguiram matá-los por serem inteiramente outras linguagens, mas as novas mídias são capazes de mesclar a maioria das vantagens de cada uma delas. Periódicos com longa história (vejam o JB, no Brasil, a Newsweek nos Estados Unidos) vão continuar quebrando e encolhendo, e os que resistirem, antes que mídias de massa, vão se transformar, cada vez mais, em mídias de nichos. Não dá para imaginar muito além disso. A história é longa, e somos curtos, de idéias e anos.

O argumento da coexistência histórica das mídias é o mais comum entre aqueles que defendem uma longa sobrevivência dos atuais suportes. Ele é que aparece, por exemplo, no recém-lançado _ não contem com o fim do livro, interessante conversa entre Umberto Eco e Jean-Paul Carriére, intermediada pelo jornalista francês Jean-Philippe de Tonnac. Transcrevo aqui o título como grafado na capa da edição brasileira, em minúscula e com underline no início, como um resíduo de escrita informatizada, numa espécie de ato falho ou provocação editorial (a edição original, francesa, não é assim)... Eis o que diz Eco, em trecho transcrito na contracapa:

“(...) o e-book não matará o livro – como Gutenberg e sua genial invenção não suprimiram de uma dia para o outro o uso dos códices, nem este, o comércio dos rolos de papiros ou volumina. Os usos e costumes coexistem e nada nos apetece mais do ue alargar o leque dos possíveis. A fotografia matou o quadro? A televisão, o cinema.? Boas-vindas então às pranchetas e periféricos de leitura que nos dãos acesso, através de uma única tela, à biblioteca univeral doravante digitalizada.”

Sim, diferentes linguagens convivem, hoje temos peças de teatro, filmes para cinema, filmes para TV, filmes para Internet, bem como as mídias mais novas podem servir de veículo para as mais antigas. Mas certamente o teatro não é mais o mesmo depois do cinema e nem esse depois da TV. O uso de manuscritos, por sua vez, desapareceu como modo de disseminação de obras escritas, fora casos especialíssimos. As transições entre os suportes são cada vez mais aceleradas, acompanhando a velocidade crescente do desenvolvimento tecnológico. Resta saber, desse modo, se as mudanças aqui discutidas estão mais próximas daquelas que ocorreram entre o teatro e o cinema, daquelas entre as diversas tecnologias históricas de impressão ou entre o manuscrito e a imprensa.

Deriva-se aí para um outro ponto da discussão, fortemente entrelaçado com o primeiro, e que é basicamente uma questão de design e tecnologia. Existem reais vantagens na troca dos livros por ebooks? Que tipos de leitor para ebook sobreviverão?

Nesse aspecto, Umberto Eco é peremptório: o livro impresso é como a colher e a roda, uma criação definitiva, que não pode ser aperfeiçoada e substituída.

Mas será isso mesmo?

O códice é fácil de manusear, mas é difícil de guardar. Consome espaço, e espaço é dinheiro. O livro nem sempre teve essa forma. Antes – apenas para ficar em uma de suas muitas manifestações – foi volumen, o rolo de pergaminho dos antigos romanos. Uma forma substituiu a outra justamente porque o códice era mais fácil de ser arquivado e consultado, além de conseguir guardar mais informação num mesmo espaço físico (faça a experiência: transcreva Guerra e Paz, com o mesmo tamanho de letra, para o formato de rolo e coloque-o na estante). O livro impresso substituiu o manuscrito porque era de produção mais rápida e mais barata, podendo gerar uma quantidade de cópias muito maior num mesmo período de tempo.

O livro digital é tudo isso: é mais fácil de ser arquivado, consultado, pesquisado, guarda mais informação num mesmo espaço físico, tem produção (e distribuição) mais rápida e mais barata, quando comparado com o livro de papel.

Por que imaginar que a história não se repetirá? Lembre-se que, nos primeiros tempos da imprensa, havia os defensores intransigentes dos manuscritos, a dizer que os incunábulos eram feios, sujos, não tinham como reproduzir as belas iluminuras das edições produzidas à mão...

Pense-se no seguinte: a diferença de preço entre uma edição digital e um livro de papel (cerca de 30% hoje), em breve, já será capaz de financiar a compra do e-reader para aqueles leitores que comprem pelo menos um livro por mês. Isso hoje ainda não é realidade. Atualmente, ainda sai mais barato comprar os livros tradicionais, mesmo que sejam mais caros individualmente, por não dependerem da aquisição de um suporte externo - a menos que a pessoa se disponha a ler seus ebooks num computador comum, que já use para outros fins, o que é bastante desconfortável.

Como exercício de futurologia, penso, por outro lado, como seria bom ler, por exemplo, A linguagem secreta do cinema, de Carriére, com a possibilidade de, a cada nome de filme citado, ser capaz de navegar para as imagens respectivas. Quando li pela primeira vez Jean Vigo, de Paulo Emílio Salles Gomes, há mais de vinte anos, tinha que me contentar em imaginar as cenas dos filmes mencionados, a que nunca assistira e que não tinha como assistir numa cidadezinha do interior de São Paulo. Recentemente, saiu uma bela edição da Cosac Naify, com a opção de ser adquirida junto com o DVD. Imagine agora uma versão digital que possibilitasse a navegação direta entre textos e imagens. Ou então ler Uma Nova História da Música de Otto Maria Carpeaux, ou O Som e o Sentido de João Miguel Wisnick com as mesmas facilidades...

Dizer que os livros digitais dependem de energia elétrica e que o livro de papel pode ser lido apenas com a luz solar pode ser uma ótima boutade, mas não resiste a uma análise mais séria. Quanta energia é necessária para produzir, distribuir, guardar e ler os livros de papel atuais? Sinceramente, num mundo em que voltássemos a ter o sol como única fonte de luz, os homens provavelmente teriam outras preocupações, e livros, muito mais do que hoje, seriam objeto de consumo de minúscula parcela da população...

Poderíamos, do mesmo modo, defender a vantagem das solas dos pés em relação aos automóveis, ônibus, trens e aviões. Mas quantos o fariam seriamente?

Sejamos realistas. Os e-readers e tablets reais têm ainda muita limitações, não só quando se pensa nas versões impressas, mas também nas possibilidades futuras. Essas limitações materializam-se, atualmente, em alguns embates, por exemplo, entre os fãs do Ipad – o computador portátil, tipo tablet, da Apple - e os do Kindle – o leitor digital exclusivo da Amazon. “Não dá para ler o Kindle no escuro”. “ Não dá para ler usando o Ipad à luz do sol”. “O Kindle não tem cor e não permite uma leitura mais interativa”. “A tela do Ipad cansa”. “O ipad é apenas um iphone que que não cabe no bolso”.

Há algum tempo, conversando com amigos, brinquei que estava faltando apenas um chinês lançar um aparelhinho que conjugasse a tela de tinta eletrônica do Kindle com a tela interativa do Ipad. Pois não é que a empresa brasileira Positivo anunciou recentemente que estara lançando um tablet com essas características em 2011? E a Amazon também promete para o ano que vem o seu e-reader com páginas coloridas. Num cenário como esse quem acredita que não é uma questão de (muito pouco) tempo termos opções com telas ergonômicas para a leitura e plenamente interativas? Enquanto isso, podemos consultar enciclopédias e livros didáticos em tablets, ler romances estrangeiros mais baratos em e-readers, clássicos em edições de bolso e nos deliciar com grafic novels e livros de arte em volumes cujas imagens parecem trazer a textura dos originais. Desde que se tenha gosto, tempo e dinheiro, é claro. Mas por quanto tempo?
(continua no próximo post)

E-reader da Positivo em lançamento no Brasil, carregado com edição de O Príncipe, de Maquiavel, da Penguin/Companhia das Letras (cujo contrato de cessão da marca prevê que todos os títulos deverão ser lançados também em formato digital)