segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O tempo comunicado

Salvador Dali: A persistência da memória


Ontem à noite tive de acertar as horas do gravador de DVD que tenho ligado a uma TV. Olhei para o relógio sobre a estante e fiquei em dúvida se ele estava correto. Lembrei-me, então, de consultar o celular, que é atualizado automaticamente pela própria rede. Um modo bem prático de resolver o problema, pois era alta a probabilidade de correspondência entre o horário do provedor do cabo e o do telefone móvel.

Quando criança, em Leme, no interior de São Paulo, lembro que minha mãe acertava os relógios de casa por meio da rádio Cultura AM. Independentemente disso, sabíamos quando era meio-dia ou dezoito horas (falávamos seis da tarde) porque o apito das fábricas ecoava, marcando o almoço e o término da jornada de trabalho.Toda vez que ouço “Três apitos”, do Noel Rosa, esses outros de minha infância são os que soam em meu coração. Também às dezoito, um locutor de voz empostada dava início à Ave Maria, que minha mãe ouvia de vez em quando. Nessas ocasiões, às vezes, ela evocava o modo como conhecia as horas em sua infância e juventude passadas em São João Del Rei, pelo badalar dos sinos das muitas igrejas que fazem parte do encanto daquela velha cidade mineira.

Interessante como essa forma de capturar o tempo (ou de sermos capturados por ele) foi mudando na medida em que o dito cujo passou. Mergulhando ainda mais no passado, agora não em memórias próprias, mas naquelas dos livros, é possível traçar um arco imaginário que vai do tempo medido pelas estações do ano e pelos ciclos do dia e da noite, passa por ampulhetas e relógios de sol arcaicos, pelos grandes marcadores de tempo mecânicos e pelos “cebolões” de antigamente, até chegar nos atuais gadgets eletrônicos que, de modo quase onipresente, pontuam toda nossa vida.

Quando o homem se aburguesou, mudando do campo para a cidade, os tempos mais largos da natureza passaram a ser insuficientes para pautar o andamento do dia, exigindo medições mais amiudadas. As horas canônicas corporificadas nos sinos das igrejas e depois aquelas que podiam ser lidas, em alguns casos, nos relógios de suas torres passaram a integrar o cotidiano.

Na medida em que mudavam os marcadores de tempo, que migravam dos sinais da natureza para instrumentos maquínicos cada vez mais elaborados, foi mudando também a forma de sincronizá-los entre as várias aldeias e cidades nas quais se instalavam. As manchas geográficas que correspondiam a uma mesma medição de tempo foram se espalhando cada vez mais. Mas o atrito era o grande inimigo de um tempo único: ainda que se acertassem de uma única vez dois relógios, se um deles fosse levado para outra localidade, de modo que não se pudesse sincronizá-los ao longo dos dias, depois de algum tempo estariam marcando horas diferentes. Assim, de início, isso que chamei agora há pouco de “mancha” podia cobrir uma área geográfica muito restrita.

A chegada do telégrafo e das vias férreas é que mudou isso. Era preciso coordenar a operação dos trens em diversas localidades, e a informação sobre as horas podia agora ser transmitida ao longo de toda uma rede física por impulsos elétricos. Assim, os principais marcadores de tempo das cidades passaram a ser antes os relógios das estações ferroviárias que os das igrejas, em um mais um passo para a laicização do mundo, com uma segurança maior de que todos eles estivessem apontando a mesma informação. Depois, vieram o rádio, a TV, a Internet, a telefonia celular, imergindo-nos cada vez mais num tempo que não é da vida, mas das máquinas....

Sem que percebêssemos, o tempo virou uma mensagem como outra qualquer, um “conteúdo” a ser compartilhado, cada vez mais regrado, cada vez mais distante dos ciclos e fluxos da natureza. Uma mensagem cada vez mais imperativa, um padrão cada vez mais preciso e uniforme. Se antes era um conjunto de índices do mundo, hoje é majoritariamente o brilho de numerais em telas plásticas, a refletirem não o nosso ritmo ou o das coisas a nosso redor, mas o de uma cultura casa vez mais medida. Como os de meu celular...


ross-mcbride-digital-dali

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Las Meninas, do entre ao depois



Las meninas, de Velázquez, é uma daquelas telas que entraram para o inconsciente coletivo. Muito já se escreveu sobre sua técnica apurada, que levou para um espaço de grandes dimensões um tipo de construção pictórica a óleo comum apenas em quadros bem menores, numa demonstração inquestionável da maestria do artista. Os desafios colocados pela obra no que se refere à questão da representação e da subjetividade renderam páginas e páginas. E, como não poderia deixar de ser, ao longo desses últimos séculos, Las meninas deu margem a inúmeras cópias, paródias e homenagens que também são um atestado de sua grandeza e capacidade de instigar.

Há alguns meses, num giro de ônibus por Madrid, encontrei uma dessas muitas releituras do quadro, que guardei dentro de um livro, como marcador improvisado, para pensar sobre ela posteriormente. Trata-se de uma peça publicitária de El Corte Inglés, loja de departamentos muito popular na Espanha, que reproduzo neste espaço.


Nesta peça, o ambiente cortês do século XVII rende uma espécie de fashion remake, em que o sóbrio pintor se transmuta num modelo que posa como fotógrafo de moda, cercado por beldades e objetos que buscam reproduzir a composição original de Velázquez.

Muito já se ressaltou a qualidade “quase” fotográfica do quadro em comento, o que certamente contribui para a facilidade de recriá-lo numa propaganda de moda. Todavia, olhe-se bem para Las Meninas.

É óbvio que a obra não se quer um instantâneo. Como que postado diante de um espelho, o pintor não se flagrou (ou se deixou flagrar por um outro eu, o pintor imaginário que o olha) com o pincel sobre a tela, mas em repouso, entre ela e a palheta. O quadro não pretende, desse modo, propor-se como um recorte de um momento singular da realidade, mas como representação de uma cena ideal entre as pinceladas que o informam.
Uma pintura não pode corresponder, a não ser imaginariamente, à captura de um instante único, ainda que busque, enganosamente, representá-lo. Forma-se a partir do acúmulo de gestos e camadas – e a obra-prima de Velázquez não escamoteia isso. Um quadro é a soma de vários momentos a constituirem um outro momento, imaginário. Um auto-retrato não se pinta ao espelho, mas a partir de muitas visadas que se dão a ele, é uma soma de resíduos que não correspondem a nenhum momento singular, mas apenas a algo que está entre a imaginação do pintor e o quadro. A própria memória é um acúmulo de camadas, por mais que se engane sobre isso, não pode se referir a um momento singular. Dito de outra forma, o sujeito que olha a tela enquanto a compõe não é o mesmo que olha o mundo –e nenhum dos dois corresponde àquele que move o pincel.

O auto-retrato fotográfico, porém, pelo menos em tese, de modo geral, procura capturar o momento mágico do clique, ainda que a imagem a ser aprisionada procure transcender esse instante, representando mais do que ele, fazendo com que o registro quase instantâneo seja signo de uma história maior - e ainda que qualquer instantâneo, na verdade, corresponda ao intervalo de tempo que a câmara gastou para capturar a luz e não a um fantasioso instante único.

Olhe-se, todavia, para a propaganda de El Corte Inglés. O fotógrafo também está em repouso, com a câmara entre as mãos. Não é alguém que se fotografa ao espelho. A fotografia aqui posa de pintura. É evidente que o "verdadeiro" fotógrafo também está fora do enquadramento, como o pintor imaginário que olha o Veslázquez de tinta no Las Meninas original. Não se trata de recorte de um movimento, mas, claramente, de uma pose - também como naquele caso. Mas o que era provocação em Velázquez parece aqui mais distração.

Olhe-se mais uma vez. No lugar do pincel, há a câmara, igualada ao instrumento que escreve na tela no caso de Las meninas. Mas no que a tela se transformou aqui? Não num suporte de papel como poderia desejar um olhar mais apressado, mas num refletor, como que a sugerir que o suporte da fotografia é a própria luz. Photo graphein, no caso, mais que escrever com a luz, parece ser escrever na luz. Quase certamente o autor da campanha não pensou nisso. Mas, no caso, manifesta-se uma espécie de inconsciente técnico. O que se quis propor como representação de uma pintura revela-se, afinal, como uma visão da fotografia.

Não seria, nesse sentido, essa peça mais uma manifestação do antigo sonho indicial da fotografia, da visão dela como um recorte do mundo pela luz e na luz – fotografia como um pedaço de realidade a ser colado depois no papel ou no ecrã?

A novela continua...

Fonte da imagem: bibliotecaets.blogspot.com
Depois de um longo intervalo, volto a escrever neste blog. Meu último post foi sobre a multiprogramação na TV digital. O que mudou até hoje? O governo finalmente condescendeu que a TV Cultura colocasse no ar os seus outros canais. Mas as promessas de que seriam editadas regras, permitindo a extensão desses direitos às demais emissoras, não foram cumpridas até hoje. A Abra – Associação Brasileira dos Radiodifusores – entrou com ação na Justiça Federal, visando a suspender o artigo 10.3 da Portaria 24/2009, do Ministério das Comunicações, que fixa que apenas TVs públicas podem oferecer a multiprogramação. A ação se fez acompanhar de um pedido de liminar, que foi negado, mas o mérito ainda não tem data para ser decidido.
Pelo jeito, a novela terá ainda muitos capítulos. O vilão todos imaginam quem seja.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Muito além do Cidadão Kane?


A TV digital brasileira voltou recentemente à mídia devido à decisão do Ministério das Comunicações de proibir, pelo menos momentaneamente, a multiprogramação fora do âmbito das TVs públicas. O assunto ganhou um colorido especial, pois a TV Cultura de São Paulo, afrontando a portaria ministerial, chegou a lançar dois canais utilizando a sua faixa de concessão. O Ministro reagiu, dando quarenta e oito horas para que os canais fossem tirados do ar, e ameaçou a emissora paulista de cassação do seu direito de fazer transmissões digitais. A Cultura recuou, e o caso, ainda agora no mês de abril, está na justiça, sem desfecho previsto.

Sobre o incidente, primeiro chama a atenção a pouca cobertura que lhe deram os principais veículos, sinal claro de que a sociedade não está prestando muita atenção ao assunto.

O tom variou muito nos poucos jornais que abordaram o assunto. O mais duro talvez tenha sido o da coluna da Daniel Castro, na Folha de S. Paulo. Segundo o jornalista, “ (...) o ato, assinado pelo ministro Hélio Costa (Comunicações), atende a interesses das grandes redes privadas, que não querem a concorrência de novos canais. Mas prejudica grupos como o Abril, que pretendia transmitir os canais Fiz e Ideal, hoje só na TV paga, nas frequências abertas da MTV.”

Algumas abordagens foram mais brandas. No Portal Terra, em 10/01/2009, a coluna de Cristina de Luca, referindo-se ao affaire Cultura, dizia que o tom do ministro foi “conciliatório”. Depois de expor a posição da Cultura, que defende haver uma brecha legal para a manutenção dos dois canais, haja vista que o Decreto de criação da TV digital se sobreporia juridicamente à Portaria ministerial, a jornalista lembrou que o referido Decreto não menciona claramente a multiprogramação, por um lado, e por outro – “com todas as letras” - estabelece que cabe ao Ministério das Comunicações a emissão de normas complementares sobre o assunto. Isto é, a tal brecha legal defendida pela Cultura não existiria.

Ou seja, estamos diante de mais um imbróglio que se arma em torno de uma tecnologia que chegou cercada de promessas. No fundo, é claro que das principais vantagens oferecidas pela TV digital – alta definição, portabilidade, mobilidade, multiprogramação e interatividade – bem pouco se concretizou até agora.

Fiquemos neste caso, que envolve a multiprogramação. Caso se imagine o espectro radioelétrico como uma estrada em que se reservam faixas exclusivas para cada carro (canais), pode-se conceber a TV analógica como um conjunto de motoristas um pouco tontos, que podem sair de seus limites a qualquer momento. Por isso, cada canal analógico corresponde a uma faixa bastante larga para que os carros não causem interferências nas rotas uns dos outros. Na TV digital, o transporte das informações é mais preciso. Numa mesma largura de faixa, é possível então transmitir uma imagem com bem mais qualidade (informação) ou criar subdivisões para diversos canais, com a trasnmissão de conteúdo mais variado. No caso do padrão japonês escolhido pelo Brasil, é possível transmitir numa mesma faixa um único canal em alta definição ou quatro canais padrão.

Essa facilidade é enxergada por muitos como um caminho de democratização do espectro, permitindo inclusive que mais entidades possam gerar conteúdo televisivo. Essa possibilidade, juntamente com o caráter interativo, poderia fazer da TV, desse modo, antes uma mídia de massas que de massa no sentido tradicional. No limite, seria possível conceber uma multiplicação de canais comunitários, dando voz a universidades, sindicatos e outros organismos representantes da sociedade civil. Ou, por outro lado, seria como se algo da TV a cabo se mudasse para o espectro aberto, sem a necessidade de caríssimas assinaturas por sua audiência.

Um exemplo concreto dessas possibilidades é o projeto da TV Cultura, ameaçado pela atuação do Ministério. A tentativa é de criar uma espécie de novo mundo universitário virtual, por meio de dois canais, o da Univesp e o Multicultura, focados em telecursos e na busca de audiências mais segmentadas.

Mas, no mundo das TVs comerciais, vê-se que há resistências ao uso pleno da tecnologia. Grandes redes objetam que é preciso vender espaço para propaganda, para que seja possível produzir mais conteúdo. Num tempo em que há um redirecionamento das verbas publicitárias, com a dispersão da audiência e a multiplicação das mídias, a ponto de gurus pregarem que estamos próximos do fim do comercial de TV como o conhecemos, é possível entender que haja receio em investir-se em mais canais, o que poderia levar a uma fragmentação ainda maior do público-alvo. Em suma, não adiantaria somar as audiências menores de vários canais para convencer um anunciante a soltar o seu dinheiro. Esse receio é explícito, por exemplo, em excerto de entrevista de Fernando Bittencourt, diretor da área de engenharia da Rede Globo, publicado na Folha de S. Paulo.

Hoje já se acumula no Brasil uma considerável literatura acadêmica sobre a TV digital terrestre. As abordagens são muito variadas e, como sempre que o assunto são as mudanças trazidas por uma virada tecnológica qualquer, é possível encontrar vozes apocalípticas e integradas, convenientemente postadas dos lados de uma trincheira por onde correm águas bastante turvas. Nos meios acadêmicos, as hostes integradas parecem ser mais numerosas, devidamente encantadas com as potencialidades abertas pela nova tecnologia. Pelo menos são mais barulhentas, talvez porque, em termos numéricos, haja bem mais gente que pouco esteja se lixando para isso, enquanto parte dos apocalípticos ache melhor perder o seu precioso tempo com outros assuntos. Todavia, de modo geral, o que se vê mais são discussões sobre as potencialidades da nova tecnologia sob os aspectos de sua interatividade e mobilidade, passíveis de reflexos tanto na forma de as pessoas se relacionarem com a mídia quanto na própria estética televisiva.

Que as possibilidades abertas pela televisão digital – quando ela “pegar” e se “pegar “– são muitas, não há dúvidas. Mas um caso como o que se menciona aqui, referente à regulamentação do uso da tecnologia no mundo real, mostra com clareza que, quando se fala desse tipo de TV, trata-se de bem mais que uma questão meramente de tecnologia, linguagem ou estética. Não há como pensar o futuro de qualquer mídia, principalmente de uma mídia nova, sem entrar no campo da economia política. Isso é ainda mais forte quando se trata de uma mídia que só pode operar em larga escala, como é o caso da TV ou do cinema, para buscar um exemplo mais antigo. Principalmente nesse caso, concorrem para a sua conformação, para a concretização de suas virtualidades, uma série de forças econômicas e políticas, que atendem aos interesses mais diversos.

A televisão – qualquer que seja ela - realmente precisa ser paga por alguém. Ou seja, implica um modelo de negócio ou de financiamento público. Nesse sentido, são bastante conhecidas as mazelas do sistema brasileiro, marcado pela concentração das grandes redes nacionais em umas poucas mãos, caracterizadas por grande força econômica e política. Infelizmente, muito do que esse sistema sempre possuiu de cartorial e fechado no mundo analógico foi trazido para o digital. As capitanias que compõem o espectro radiomagnético continuam a atender a interesses políticos e foram preservadas, basicamente, nas mesmas mãos em que estavam, com o interessante argumento de que era preciso preservar investimentos. Uma tecnologia nova não mereceria que se permitissem novas maneiras de exploração do espectro? A multiprogramação não poderia ser um caminho para isso?

A menos que se acredite na possibilidade de uma sociedade totalmente livre, em que todos os indivíduos e corporações ajustem seus limites naturalmente, seja guiados pelo bom senso, pela bondade ou por uma força invisível qualquer, há de se admitir que as relações entre os vários atores sociais devem ser reguladas. A democracia ainda parece ser o melhor sistema para isso, mas numa sociedade complexa sempre haverá lobbys e movimentos interesseiros, a ponto de Rosseau – um pensador sem dúvida otimista - não ter acreditado que pudessem sobreviver democracias em estados de grande porte. Nesse sentido, pode-se pensar inclusive que o sucesso da democracia encontra-se num ponto de equilíbrio entre a ação de poucos e a informação para muitos, que podem impedir a ação desses poucos sempre que ela interferir no bem geral.

Como estamos numa sociedade capitalista, regulação e modelo de negócio caminham lado a lado. E, como no sistema capitalista tapuia poucos se assentam no topo da cadeia alimentar, sempre é possível pensar que esses poucos estejam agindo para preservar ou ampliar os seus interesses em detrimento de causas mais nobres.

Num cenário como o atual, seria desejável que, enquanto a TV digital não vem de verdade, as outras mídias gastassem um pouco mais de tempo para informarem sobre o que está acontecendo nos bastidores, nesse momento em que se desenha o que será o futuro da TV brasileira. Não podemos esquecer que, mesmo perdendo espaço para competidores como a Internet, a TV aberta continuará sendo por muitos anos uma das principais arenas para o exercício da cidadania.

Debater as suas potencialidades tecnológicas, de que modo elas podem servir aos interesses da sociedade civil, é muito importante para a democracia. Exigir explicações públicas sobre os motivos por que se restringe, ainda que momentaneamente, o uso pleno das novas capacidades tecnológicas, é tão ou mais importante do que discutir o destino de uma verba pública específica. Intelectuais, líderes da sociedade civil, cidadãos de modo geral, deveriam estar preocupados com isso. No entanto, bem poucos parecem ter acordado até agora.

terça-feira, 31 de março de 2009

Aniki-Bóbó



Neste final de semana, assisti a uma pequena preciosidade do cinema: Aniki-Bóbó, de Manoel de Oliveira. Eu ía escrever do “cinema português”, mas percebi que assim restringiria a apreciação de uma obra que não merece ser aprisionada entre as fronteiras de um adjetivo nacional.

Neste filme de 1942, sua primeira obra de ficção, o poeta-cineasta ainda não era esse que conhecemos, o realizador de O Quinto Império, Um filme falado ou O Princípio da Incerteza. Há um lirismo quase piegas em alguns momentos, uma ação mais marcada do que em seus filmes posteriores. Muitos poderão achá-lo menos chato. A música interfere na narrativa de um jeito que depois não faria mais parte da sintaxe desse criador, o único que hoje sobrevive desde o cinema mudo. Mas, de qualquer modo, é Manoel de Oliveira que está ali inteiro, na capacidade de capturar poeticamente fragmentos de uma realidade maior do que qualquer câmera, reconstruindo-a por meio de um olhar que é, ao mesmo tempo, o de um velho e de uma criança.

É quase um milagre assistir a esse filme fora de uma mostra qualquer. Manoel de Oliveira é uma raridade em nossas locadoras, quase ninguém o conhece no Brasil, esse país tão próximo e tão distante de Portugal. Naquele país mesmo, quem o conhecerá? Essa dificuldade fica ainda maior no caso de um filme antigo, preto e branco, difícil de encontrar até mesmo em Lisboa. Vi-o com imagens um pouco oscilantes e legenda em italiano que, às vezes, ajudava a entender as palavras dessa difícil língua portuguesa do além-mar, diluídas no som ruim de uma cópia colhida na Internet, ripada de uma transmissão da RAI por algum maluco benfeitor.

Quase caí na tentação de dizer que Aniki-Bóbó é um filme sobre crianças. Mas é um filme sobre gente, sobre seres humanos que estão sempre em formação. Uma história sobre dúvidas éticas. Quem rouba é capaz de matar? Matar é o desejo, ainda que abrupto e passageiro, de fazê-lo, ou o ato em si? Nele o deslinde de um crime que não era crime até pode trazer o apaziguamento final, mas é impossível ao espectador atento esquecer que, por um momento, uma mão se ergueu com raiva.

A brincadeira de polícia e ladrão, que lhe dá o título, ganha conotações épicas, na medida em que a película trata dessa pequena grande luta do homem consigo mesmo. É um épico das pequenas coisas da vida, mas isso não o faz menor. Na tela, crianças amam, traem, mentem, roubam, ficam em dúvida, sofrem, tornam-se grandes em sua pequenez. Assim como no mundo o fazem os homens, crianças sempre, na medida em que estão continuamente a aprender e a desaprender sobre si mesmos.


Em Aniki-Bóbó nada é firme, porque tudo é humano. O menino acha roubar feio, mas rouba para conquistar a menina que, se assim não fosse, não lhe daria atenção. O guarda é uma quase alegoria da punição, uma encarnação da consciência pesada, mas tem também o olhar de um pai compreensivo. O dono do armarinho, de ogro, comerciante sem coração, transforma-se em quase santo, apenas para voltar depois a uma condição muita humana. E assim por diante.

Até o que filme possa ter de precário - as interpretações de alguns atores, algumas imagens surradas - de modo intencional ou não, acaba por contribuir com o desenho ambíguo que ele traça.

Aniki-Bóbó, desse modo, transforma-se numa história de formação, de descoberta, mas não apenas da formação e da descoberta que fazem parte da caminhada da criança rumo ao adulto. O jogo nele é bem mais complexo, mais sutil - encena no fundo essa dificuldade que é ser homem, mulher.

Deu no The New York Times


Mais uma sobre a Internet, agora colhida da transcrição de um artigo de Alex Wright no caderno “The New York Times”, da Folha de S. Paulo, em 30/03/2009:

Em 2008, o Google obteve o trilionésimo endereço na sua lista. Isso mesmo: o trilionésimo endereço! Confesso que tenho dificuldades de compreender um número tão grande. E o artigo esclarece que esse trilhão refere-se tão somente à superfície da Web, pois os programas de busca chamados crawlers (rastejadores) não conseguem atingir as camadas mais profundas da rede, compostas de bancos de dados preparados para responderem a consultas que precisem da digitação de dados específicos.

A busca pelo que o artigo chama de “web profunda” (talvez fosse mais correto chamar de internet profunda, pois a web, por definição, é a camada mesma de superfície da rede) mobiliza diversos pesquisadores pelo mundo afora. O desafio é grande, pois é preciso desenvolver ferramentas de busca mais inteligentes, capazes de traduzir o desejo de busca de alguém numa ponta da linha para os milhões de bancos de dados que existem na outra.

O artigo fala em “consumidores” e “empresas”, pensando obviamente no potencial de mercado desses futuros buscadores. Menciona a possibilidade de usuários consultarem arquivos públicos do governo, apresentando-a como uma forma de páginas de notícias locais ampliarem a sua cobertura.

De qualquer modo, para lembrar a postagem anterior deste blog, o volume de informação disponível se tornará ainda maior. Talvez determinadas buscas fiquem mais incisivas, tirando um pouco do romantismo da flaunerie internética atual ou a fazendo menos exasperante às vezes.

Creio que não podemos ter ilusões: os avanços técnicos, neste caso como em tantos outros, continuarão a ser impulsionados pelo desejo de venda. Todavia, muito além do mercado, talvez seja necessário perguntar em que medida esses novos mecanismos de procura poderão servir à cidadania, por meio dos novos acessos que potencialmente se oferecerão às entranhas dos governos. Ou talvez que novos perigos ameaçarão a nossa cada vez mais encolhida privacidade…

segunda-feira, 23 de março de 2009

O grande blá blá blá

Fonte da imagem: http://belogue.files.wordpress.com/2008/01/bla_bla_belogue.jpg

No Primeira Chamada (publicação de bordo da TAM), de 23 de março de 2009:

INTELIGÊNCIA
75 pilhas de livros daqui até o Sol
Esse será o volume de informação digital produzida em 2010. Use de um jeito inteligente.

E, ironicamente, na mesma página, logo abaixo:

DESPERDÍCIO
Falta inteligência na Internet

Na Internet, 80% dos dados novos produzidos são conteúdos desestruturados.

Fico a pensar no volume de informação não digital e desestruturada que sempre se produziu diariamente. Bilhetinhos na porta da geladeira, listas de compras, fofocas, piadas em bares, torpedos, relatórios administrativos, anotações em diários, poemas, rascunhos, trabalhos escolares, anotações científicas, lembretes, declarações de amor, fotos analógicas, canções logo esquecidas. A diferença é que tudo isso não está no ar e, portanto, não pode ser acessado, intencional ou inadvertidamente, por muitos. Certamente, se tudo fosse publicado e empilhado, teria de sair da galáxia...

A informação gerada no planeta sempre cresceu exponencialmente, com todos tendo acesso a apenas uma pequena parte dela. Se a Internet não colocou ordem na bagunça, veio a se tornar um grande espaço comum, uma espécie de gigantesco quadro virtual, onde parte da torrente informacional pode se colar, destruturada ou não. O desafio é justamente extrair algum ordem disso, gerar mensagens da barafunda cibernética, para que essa diversidade não resulte em mera entropia. O primeiro passo para isso talvez seja justamente não ficar encantado em excesso com o excesso de dados disponíveis. O segundo, encontrar uma postura entre o flaneur, o detetive e... o Urtigão desconfiado.

Mas que é muito melhor ter informação desestruturada em excesso do que não ter nenhuma, ah, não há dúvidas!